sábado, 10 de novembro de 2007

uma história do pai do gaspar_prt2


ali estava eu no escuro, tão escuro que só através das mãos é que eu conseguia ver, mas também não era preciso ver mais. já tinha passado talvez uma hora, eu já tinha percebido que não havia nada a fazer a não ser ficar por ali mesmo, ir gritando o mais possível, assobiar bem alto, aguentar-me à bronca como se costuma dizer. lá em baixo no silêncio do poço os sons da água eram mais concentrados e límpidos, ouviam-se os pingos mais pequenos a cairem-me das mãos que ia tentando manter o mais possível fora da água. do tempo comecei a perder a noção, o frio apertava mais e fazia-me bater o dente. só me lembrava da ana e dos míudos. não, isto não podia estar a acontecer, coitadinha da ana que com esta enlouquecia de vez, os meus filhos ainda tão pequenos... gritava por eles, pelo nome deles bem alto... em resposta só mesmo os cães que ainda me fizeram pensar que talvez, se os donos ouvissem tanto ladrar, talvez fossem ver o que se passava, mas... nada!!
senti-me totalmente perdido. sensação estranha aquela, parecia que a porta estava ali ao lado para ser aberta. do outro lado não sei o que seria, apenas que não haveria volta. pensei no gaspar, na ana, no gustavo, na minha mãe, nos meus amigos, na decisão que tinha tomado para a minha vida e que nem sequer teria hipótese de a colocar em prática em vida ainda. pensei muito no gaspar e no gustavo, na falta que eu ainda faria. pensei muito mesmo no gaspar e nas coisas que andei a escrever sobre ele. era agora que eu poderia só comigo mesmo, provar que as lições de vida do gaspar serviriam para alguma coisa. foi aí que eu percebi como poderia (talvez) safar-me daquela situação que era grave. grave é a situação do gaspar, pensei eu. e ele vive essa gravidade com a "ingenuidade" de uma criança, o que lhe permite não complicar as coisas como nós o fazemos constantemente com o potencial do nosso pensamento. achei que deveria colocar os pensamentos de crescido de lado e tentar passar a noite despreocupado com o único objectivo de chegar até ao amanhecer. o gaspar assim o faz, o único caminho que ele conhece é para a frente enfrentando tudo com todas as forças e fraquezas. é muito complicado porque complicamos. é complicado estar naquela situação e pensar que não queremos pensar nela. é muito complicado estar a tremer de frio e fingir que não o sentimos. é muito complicado pensar que devem faltar para aí umas cinco horas e recalcar o desespero. a situação era de facto muito complicada. fiz discursos, cantei, gritei, vociferei asneiras imensas, assobiei o mais alto que conseguia. lembro-me de cantar o que ouvia quando caí, caetano veloso. prometi a mim mesmo que de manhã, quando chegasse a casa iria fazer aqueles ovos caseiros mexidos para o pequeno almoço. para mim e para todos lá em casa, porque todos adoram os meus ovos mexidos. mexi-me a noite toda para não me deixar arrefecer. nunca pensei que fazer xixi em cima de mim fosse tão bom e fazia devagarinho para sentir o quente. conversei comigo mesmo sem me censurar, apenas para me dar força. não valia de nada ali perguntar-me porque não tinha ficado sossegado em casa ou apelidar-me de estúpido. isso significava desperdício de energia que eu necessitava. houve aquela altura da noite em que entrou a luz da lua pelo buraco que eu tinha deixado nas ervas e iluminou a água no meio do poço. era uma luz que não iluminava nada, apenas a água no meio do poço e o meu pé quando o colocava por baixo e o via na transparência da água (sim a água era limpinha). brinquei muito com isso, ora com o pé direito, ora com o esquerdo. com tudo isto começou a amanhecer e a esperança tornou-se maior. foi só aí que comecei a ver onde estava, as paredes, os buracos nas paredes, as ervas que boiavam do outro lado e paus também, lagartixas estranhas com ar de que não apanhavam sol há muito. já faltava pouco, iam dar pela minha falta e procurar-me. aproveitei o silêncio da manhã e gritei para tentar encontrar os primeiros a acordar. já faltava pouco. por trás do sítio onde tinha passado a noite, havia um buraco para onde tentei trepar agarrando-me a uma pedra mais saliente que se partiu, partindo-me o dedo. nem dei por ela mas partiu.
pelas nove da manhã, a senhora dona do poço, ouviu umas coisas e teve um mau pressentimento. chamou um primo e foram ver o poço. ai meu deus, ai meu deus, espere aí que vamos buscar uma escada. os três minutos que se seguiram foram como uma hora, parecia que nunca mais chegavam com a escada. trepei a escada lançada com a firmeza da alegria de estar a ser salvo. saí, senti o calor do sol e chorei, chorei até não poder mais. até chorar me custava porque me doiam os abdominais de tanta contracção de frio, gritos e assobios. deitei-me no chão e o primo aires foi-me buscar de carrinha para percorrer uns 300 metros. nem a chave eu conseguia tirar para abrir a porta porque as minhas mãos eram uma enorme greta engilhada.
entrei e estava a ana e os miúdos a acabar de acordar. por um lado foi bom pois estiveram descansados, por outro foi o que foi. tomei um banho quente, fiz os melhores ovos mexidos da minha vida e fui dormir.
parti mas fiquei. para contar esta história e mais uma vez agradecer
OBRIGADO GASPAR

3 comentários:

célia disse...

obrigado a vocês Veiga. São fantásticos

gabriel disse...

Leio-te e fico a pensar em como sou cobarde, em como tudo o que passei é pequenino e nem merece ser mencionado... Fico a pensar que é mesmo de pequenino que se torce o pepino, que é mesmo por aí que começa a grande luta contra a adversidade e a grande adição à felicidade.
Obrigado pelas lições.

fi disse...

eras preciso e precioso!