segunda-feira, 5 de novembro de 2007

uma história do pai do gaspar_prt1

não consigo deixar de olhar para o meu dedo torto sem me lembrar da história. não consigo deixar de me arrepiar de cada vez que me lembro da história.

era noite, noite já depois da meia noite. lá onde estávamos a passar o fim de semana prolongado do cinco de outubro a noite já se apresentava fresca. na sertã, mais propriamente na herdade, nome de terra da minha sogra que depois de umas curvas e contracurvas em estrada cada vez mais apertada, se chega a uma aldeia, já tudo estava a dormir à excepção de um urbano que passando no café ainda encontra os últimos autóctones da aldeia que teimam em beber mais um, pagar mais outro e brindar às mulheres para que nunca fiquem viúvas. inspirado com o medronho bebido, vesti uma sweatshirt mais grossa para combater a frescura da noite, pus o ipod nas orelhas e decidi ir passear na noite calma da herdade. já passava então da meia noite. o silêncio era proporcional à hora, por vezes cortado pelo ladrar de cães ora num lado ora noutro em tom de comunicação. segui o meu caminho acompanhado pelo caetano veloso. o céu estava limpo e pejado de estrelas, tantas que nos fazem perceber da nossa infelicidade na luminosidade da cidade. a música era dengosa mas eu assim estava também. tinha procurado esse fim de semana em família para recarregar energias. estrada fora lá fui eu, deslizando ao som desse grande senhor quando o alcatrão se transformou em terra batida, as luzes se foram tornando escassas e os caminhos se foram mostrando desconhecidos. a aldeia tinha ficado para trás num silêncio que chegava até ali onde parei por ouvir um cão com ladrar de poucos amigos. achando que ele estava na sua missão de guarda, desviei para um caminho que me levou a um campo arado e completamente escuro. parei de novo para me posicionar, de onde vinha, para onde queria ir e de que forma o iria fazer. até aqui só tinha descido deixando as casas para trás. refazer o caminho de volta apresentou-se como algo a não fazer (não me apetecia). aquele caminho estava a ficar tão escuro que seguir por ali retirava todo o sentido à palavra passeio. parado no meio do campo arado, olhei para outro lado e vi umas luzes que eram indicativas de estrada, só que eram lá muito em cima onde também havia uma casa. tinha a certeza de que por ali iria dar à capela da passaria (outra terra) e assim daria a volta de regresso à herdade. pois foi assim que tudo começou! dou início ao corta mato, uns metros à frente percebo pelo pisar que há algo plantado e chego a uma zona, onde consigo distinguir no hábito dos olhos à escuridão, umas ervas mais altas. tinha acabado o campo arado e tinha começado o mato que era algum ainda a vencer até chegar à estrada. paro de novo para me orientar, pego no ipod para ter alguma luz, dou um passo gigante como que a querer ultrapassar as ervas mais altas e o pé cai no vazio, não havia chão. foi o pé e todo eu. primeiro a camada das silvas e plantas várias e quatro metros abaixo, a água. em menos de dois segundos o passeio transformou-se num pesadelo. caído no poço, na água sem pé e no escuro total foi o pânico mais que total. nadei não sei para onde, senti as paredes de xisto e tentei agarrar-me. as pedras mais salientes que eu tocava e agarrava com força partiam-se e eu voltava a afundar. a roupa molhada pesava muito naquela água doce e dava-me pouca amplitude de movimentos. o cansaço foi rápido e muito provocado pelo pânico, mas eu estava mesmo em pânico. o raio do poço era fundo, não se via nada, não tinha pé, estava sustentado pelas pontas dos dedos na flutuação, pirolitos que me cansavam ainda mais quando tentava agarrar ramos e caía mais ao meio do poço afundando-me de novo, enfim, um desespero como nunca senti na vida. foram ainda uns minutos nisto até pensar que tinha de me controlar, a mim e ao pânico porque nem sequer pensar eu estava a conseguir fazer direito. comecei a gritar por socorro (quem terá inventado esta palavra que não serve para nada??), ajuda, help, assobiar com os dedos na boca, gritar tão alto quanto o desespero ..., de volta só o silêncio, nada a indicar que àquela hora se fosse passar alguma coisa mais por aqueles lados que não fosse o paulo veiga a passear e acabadinho de caír num poço, lá, longe da aldeia. isto era como as histórias dos poços que se costumam ouvir lá pela aldeia, parecia que não podia ser verdade mas era, como era possível?? não posso aqui transcrever a quantidade de, e que asneiras eu disse naquela noite. as asneiras têm o seu quê de anti-stress :) depois de mais controlados pânico e aflição, fui-me deslocando para o lado esquerdo à procura de mais apoio e encontrei qualquer coisa como um alto de terra que permitia eu assentar os pés no fundo com água quase pelo pescoço, mas acima de tudo descansar! descansei a respiração ofegante dos minutos anteriores e lembrei cinco dias antes, tinha estado com o gustavo num parque onde havia um poço muito fundo e protegido. chamei-o, mostrei e falei-lhe sobre os poços abandonados e cobertos por ervas no meio do mato lá pela terra da avó, daí ser importante não saír dos caminhos e blá blá ... eu não estava a acreditar na ironia de tudo, nem naquele destino que parecia tão negro quanto o escuro lá no fundo do poço. (continua)

4 comentários:

Flash disse...

Então?

Deixas-nos assim nesta ansiedade de saber se te afogas ou não?
Suponho que não, pois este post não deve ter sido publicado via i-pod, e o dedo partido deixa antever uma mazela que ainda vai ser contada. De qualquer maneira estou a gostar tanto do estilo como da história.
Voltarei até conseguir ler o desfecho.

Abraço

fi disse...

Isso quer dizer que "dormiste mal" nessa noite?

Susana Bacelo disse...

Só hoje é q tomei conhecimento deste blog, e achei interessante a maneira como retrata a história de vida do Gaspar.Também tenho 2 filhos pequenos e acho que deve ser uma dor agonizante...isto não deveria acontecer a ninguém muito menos a crianças...desejo muitas felicidades e muita força aos papás e ao pequeno Gaspar que é um Super-Herói.

Anónimo disse...

De novo procuro notícias...

Há alguns dias que por cá não passava... uma breve ausência "técnica".

Bati à porta com receio infundado. Respiro aliviada tal como o pai do Gaspar ao encontrar o seu monte de terra, ou o que quer que fosse, onde pôde apoiar os pés.
Cuidado Gaspar, o teu pai está a querer tirar-te protagonismo, o herói és tu!

Obrigada "superpai", aguardo o desfecho que, por sinal, terminou da mehor forma. Espero que o Caetano se tenha salvo também.

Foram-se os anéis? Menos mal, ficou o dedo.